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Resenha: Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida

"Era no tempo de rei". Este é o ponto de partida dessa história, que além de descrever vários costumes da época de D. João VI, tem como protagonista o irrequieto Leonardinho. O romance de Manuel Antônio de Almeida acompanha a vida desta personagem, desde sua infância de menino traquinas, em que foi abandonado pelos pais, até a idade adulta, em que continua se metendo em muitas confusões. Foi com essa única narrativa bem-humorada que o autor já entrou para a história da nossa literatura, como criador de um dos melhores e mais completos romances picarescos já lançados.


A obra foi originalmente publicada em folhetins semanais do suplemento Pacotilha, do jornal Correio Mercantil, assinada com o pseudônimo de "Um brasileiro". Porém, Manuel Antônio de Almeida não alcançou o merecido reconhecimento em vida, vindo este somente após a sua morte em 1861.

O livro divide-se em duas partes, com pouco mais que vinte capítulos cada uma. A narrativa, livre dos excessos metafóricos do Romantismo, aproxima-se do gênero jornalístico. O narrador descreve todos os acontecimentos como se estivesse sentado à mesa dialogando com os leitores, o que, somado aos traços cômicos, torna a leitura leve e rápida.


A narrativa se passa na época de D. João VI, no início do século XIX. Logo no princípio do enredo, temos acesso a um casal bem singular: o meirinho Leonardo-Pataca e Maria das Hortaliças. Os dois se conhecem em um navio, enquanto mudavam-se para o Brasil. Entretanto, quando chegam no país, a tal Maria começa a sentir enjoos. 



Não demora muito para que se pudesse observar o resultado de tantas "pisadelas e beliscões" entre os dois, e sete meses depois nascia Leonardinho, o 'herói' desta história e nosso tão adorado protagonista. Desde cedo, o pequeno Leonardo já provava levar jeito para a traquinagem. Não importava quantos "passeios aéreos" que os pontapés de seu pai lhe proporcionava, ele continuava sendo o terror da vizinhança.

Com nosso protagonista ainda muito pequeno, Maria (sua mãe) é flagrada pelo marido com outro homem e acaba fugindo para Portugal. Depois disso, logo Leonardo-Pataca também abandona o pequeno. Sendo assim, Leonardinho acaba sendo criado pelo padrinho, um barbeiro experiente, com a ajuda da madrinha, uma parteira respeitada.

Mesmo depois de desenvolver forte amizade por seu padrinho, Leonardinho não abandona a traquinagem. Muito pelo contrário. Apesar de toda a boa vontade do padrinho, que sempre o defendia e sonhava que o menino fosse clérigo, o pequeno causava cada vez mais alarme na vizinhança.

Passam-se alguns poucos anos e concretizam-se os desejos das vizinhas, o rapaz realmente não levava jeito para clérigo. Aliás, nem para qualquer outra coisa. Tornou-se, portanto, um vadio. Porém, era 'babão' como seu pai (Leonardo-Pataca), e a partir daí acaba se envolvendo em muitas confusões, muitas vezes motivadas por mulheres.

Leonardinho, em ilustração de Darel

Apresentando-nos a sociedade carioca no início do século XIX, Manuel Antônio de Almeida afasta-se do estilo romântico que predominava na época, para nos apresentar um romance, que ao mesmo tempo cômico, nos mostra os costumes daqueles tempos através de um olhar crítico. Provavelmente o autor usou sua experiência pessoal nas camadas mais humildes da população carioca para ter conseguido construir um enredo tão rico. Este é, na minha opinião, o melhor do livro. Enquanto nos divertimos com a malandragem de Leonardinho, o autor vai descrevendo diversos costumes da vida na Corte. Fala dos diálogos entre familiares e vizinhos, fala sobre educação, polícia, religião e até mesmo descreve algumas vestimentas e construções da época.

Além disso, como já foi dito, "Memórias de um Sargento de Milícias" afasta-se do Romantismo, para ser um dos mais significativos romances picarescos - se não o mais significativo - da história. Nele, além da forte ponta para o humor, pode-se notar a formidável construção das personagens. Elas não são nem mocinhos nem vilões, todas elas exibem virtudes e defeitos. A mulher aqui não é idealizada; o autor mostra como elas realmente se comportavam, desde quando se tratava de uma 'moça recatada' até as namoradeiras. Outro ponto importante é como um casamento da época é apresentado, quando uma das personagens (Luisinha) acaba arranjada num relacionamento em que mal podia sair de casa (muitas mulheres nesta situação acabavam fugindo, como também é relatado no livro).

Somando-se a isto, também podemos observar como a juventude da época se comportava, principalmente quando se reuniam com outros amigos para fofocar e cantar modinhas. A vizinhança também não escapa do olhar crítico do autor, que descreve como as vizinhas geralmente tinham forte inclinação para fofocar sobre a vida alheia e provocar discussões. Outro ponto interessantíssimo é como a polícia da época se comportava,como perseguiam e prendiam as pessoas, abrindo espaço para uma personagem muito importante na trama, o Major Vidigal.

Por estas e muitas outras qualidades, recomendo esta obra não só para aqueles que queiram dar boas gargalhadas, como também para os que queiram descobrir e se aprofundar acerca dos costumes da sociedade da época. Vale lembrar que esta é uma leitura extremamente recomendada para estudantes que pretendem prestar o Enem ou vestibulares.


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