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Resenha: Indesejadas, de Kristina Ohlsson

Quando a pequena Lilian desapareceu em meio a um verão chuvoso, a equipe do inspetor Alex Recht suspeitava que aquele era apenas mais um caso de disputa conjugal pela guarda da criança.














"Um dia miserável de um verão miserável." (pg 23)

Alex era reconhecido como uma verdadeira lenda da polícia sueca. Já havia solucionado os mais diferentes crimes em sua longa carreira na polícia. Mesmo quando a jovem e promissora analista criminal Fredrika Bergman suspeitava que o caso era muito mais que um rápido sequestro, a experiência de Alex apontava o contrário.


"Era preciso se concentrar em outras coisas básicas em casos de crianças desaparecidas. A grande maioria das crianças acabava sendo encontrada. Mais cedo ou mais tarde. E 'mais tarde' era no máximo um ou dois dias." (pg 74)

Entretanto, quando a pobre menina é encontrada morta em uma cidade no norte da Suécia, com a palavra "INDESEJADA" escrita na testa, o caso se transforma no pior pesadelo da equipe de investigadores. Eles terão que correr contra o tempo para encontrar o serial killer e impedi-lo de continuar assassinando brutalmente mais e mais crianças inocentes.

"Algum tempo depois, Alex se perguntaria quando esse caso se transformou num animal selvagem que paralisou toda sua equipe ao manifestar, de maneira descarada e persistente, sua própria vontade e escolher seu próprio caminho. Era como se o caso tivesse vida e o objetivo único de confundir a equipe, prejudicando seu trabalho.
'Não ouse querer me controlar', dizia a voz interior de Alex. 'Não ouse me dizer para onde ir.'" (pg 219)

Indesejadas, o primeiro livro da escritora sueca Kristina Ohlsson me conquistou desde o início da narrativa justamente por causa da sua protagonista, Fredrika Bergman. É maravilhoso quando a literatura foge do infeliz lugar comum de colocar pouquíssimas mulheres como destaque em seus livros. E Fredrika não é apenas mais uma protagonista; ela foi construída de maneira primorosa. Ao mesmo tempo que é uma mulher atraente e dona da própria sexualidade, é cheia de habilidades, sonhos e medos. Seu passado se mostra triste, quando ela é impedida de se tornar musicista profissional por causa de um grave acidente. Depois de ser obrigada a abandonar seu maior sonho, o "destino" a empurra para a polícia. Lá, ela enfrenta muitas dificuldades pois desde o início era desacreditada por seus colegas de trabalho por ser mulher e não ter a "formação necessária" para a polícia. Mas aos poucos Fredrika vai demonstrando ter muito mais talento como investigadora do que qualquer pessoa imaginava, do que até mesmo ela imaginava.

E é desde Fredrika que Ohlsson mostrou ser uma feminista realmente disposta a tratar os problemas que envolvem mulheres. Ela usa os mais diferentes cenários e personagens para expor como o preconceito ainda está presente na sociedade, desde como as mulheres podem ser desacreditadas no trabalho até casos em que convivem com a violência doméstica. 

"Sua mãe nunca mediu palavras para lhe dizer em que consistia a vida: precisa estudar, se casar e perpetuar - esta última basicamente pela reprodução. Educação, marido e filhos: a santíssima trindade das mulheres. Não havia espaço para carreira dentro dos limites restritos dessa trindade; tampouco era necessário, pois o marido deve sustentar a esposa. Nessa caso, os estudos serviam apenas para conversar com pessoas cultas. [...]

Ela não tinha problema nenhum com as tentativas do filho endireitar Sara na marra, mas o envolvimento com a polícia precisava parar. Era vergonhoso para a família, e limpar o nome dele repetidas vezes ficaria mais difícil com o tempo, principalmente porque os esforços do filho para endireitar Sara acabavam deixando marcas visíveis e Sara não tinha o bom senso de manter a boca fechada sobre o que acontecia na família." 
(pg 134, 135)

"- Se a mulher sofreu alguma agressão, ela deve ter procurado a polícia na época e sentido que não teve apoio nenhum. Nesse caso, ela estaria traumatizada com a experiência que teve com a polícia, e provavelmente continua com medo do ex. Por causa disso...

- Mas que merda é essa? - interrompeu Peder, irritado. - Como assim "traumatizada com a experiência que teve com a polícia"? A polícia não tem culpa se quase todas as mulheres que prestam queixa de agressão acabam retirando as queixas uma atrás da outras e..." 
(pg 114)

"Aquele era um pensamento realmente proibido. Ela não devia questionar o Homem em nada, as regras eram essas. Se ele a repreendesse, era para o bem dela. Se ela não entendesse, a relação dos dois enfraqueceria até se destruir. Quantas vezes ele repetira isso?
Mesmo assim.
Jelena foi perdendo pouco a pouco a fé em si mesma e em todos ao redor. Era sozinha, porque merecia ser sozinha. Por isso se tornou uma mulher que agradecia e se sentia querida quando alguém como o Homem a queria." 
(pg 216)

Mas Ohlsson não se foca apenas nas mulheres. Todas as personagens foram construídas de maneira surpreendentemente complexa e humana. Elas não foram divididas apenas em vilões e mocinhos, mas todos demonstram possuir virtudes e defeitos, anseios e receios, diferentes formas de ver a vida.

Justamente por causa dessa complexidade é que o enredo não apresenta apenas uma via central, mas sim diferentes perspectivas, o que possibilitou a criação de diversas histórias secundárias, onde conhecemos o passado das principais personagens, acompanhamos o desenrolar de amores e traições e até casos extremos de pedofilia (comuns na literatura escandinava).


Quando tantos aspectos positivos se encontram com a escrita ágil e envolvente de Kristina Ohlsson, Indesejadas se torna um prato cheio para qualquer amante de literatura, principalmente para aqueles mais afeitos aos thrillers policiais. Neste seu primeiro livro a autora já mostrava ter um talento indiscutível e certamente será lebrada como um dos grandes nomes da literatura escandinava contemporânea. Mal espero poder ler os próximos livros da série de Fredrika Bergman e Alex Recht.

Kristina Ohlsson nasceu em Kristianstad, no sul da Suécia, e hoje vive em Estocolmo. É cientista política, ex-analista estratégica de segurança da Polícia Nacional da Suécia e trabalha como agente contra o terrorismo na Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE). Indesejadas é o primeiro livro da série que tem como protagonista a investigadora Fredrika Bergman.

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