Resenha: Lira dos Vinte Anos, de Álvares de Azevedo


Hey, pessoal! Tudo bem com vocês? Conforme prometido há umas semanas, quando postei a resenha de Noite na Taverna, também iria postar uma resenha do livro Lira dos Vinte Anos. Como já comentei diversas vezes por aqui, Álvares de Azevedo é meu autor favorito. Embora ele tenha morrido muito cedo, com apenas 20 anos, deixou um legado muito importante para nossa literatura.

Álvares de Azevedo escreveu diversos poemas, romances e peças de teatro. Entretanto, infelizmente não viu nenhum deles sendo publicados devido à sua morte precoce. Às vezes me pego pensando em como seria se o Maneco (apelido carinhoso do autor) não tivesse morrido tão cedo... Será que ele teria seguido a carreira de autor? Ou será que teria se tornado um importante jurista, já que estava estudando Direito? Um político, talvez? Infelizmente, não temos como adivinhar o que o destino reservava ao nosso Maneco. O fato é que ele saiu da vida para se tornar um dos mais importantes escritores da literatura brasileira.

Como disse anteriormente, Álvares de Azevedo não chegou a publicar livros em vida. Porém, chegou bem perto disso. Na época em que ele faleceu, estava preparando a publicação daquela que é provavelmente sua obra mais importante: Lira dos Vinte Anos. A grande curiosidade aqui – e que poucos conhecem – é que o famoso livro na verdade é derivado de uma outra tentativa de publicação prévia do autor.

Tempos antes de decidir pela publicação de sua Lira dos Vinte Anos, Álvares de Azevedo havia tentado publicar alguns de seus poemas em uma “obra coletiva” com dois de seus melhores amigos, Bernardo Guimarães e Aureliano Lessa. O tal livro se chamaria “As Três Liras” (sugestivo, não?). Infelizmente, devido a diversos fatores, os amigos decidiram pela não publicação. Mesmo assim Maneco decidiu seguir em frente com o sonho de ver seus poemas publicados e começou a organizar seu próprio livro, que se tornaria a Lira dos Vinte Anos.

Agora, falando um pouco do livro. Considerando que Álvares de Azevedo é o maior expoente do Ultrarromantismo no Brasil, você já pode esperar que o livro contém muitos poemas melancólicos que versam sobre temas como amores impossíveis, satanismo, morte, suicídio, virgens inacessíveis e toda aquela coisa. Não que tenha algo errado com isso, pois foi justamente o que tornou o autor uma das maiores influências do gênero. Entretanto, se você é daqueles que rejeita o Maneco justamente por achar que sua poesia se resume a isso, sugiro deixar o preconceito de lado e dar uma chance à Lira dos Vinte Anos. Digo isso pois o autor revela diversas de suas facetas nessa obra, muitas delas tomadas até por uma pitada de humor e ironia.

Namoro a Cavalo

Eu moro em Catumbi. Mas a desgraça
Que rege minha vida malfadada
Pôs lá no fim da rua do Catete
A minha Dulcinéia namorada.

Alugo (três mil réis) por uma tarde
Um cavalo de trote (que esparrela!)
Só para erguer meus olhos suspirando
A minha namorada na janela...

Todo o meu ordenado vai-se em flores
E em lindas folhas de papel bordado
Onde eu escrevo trêmulo, amoroso,
Algum verso bonito... mas furtado.

Morro pela menina, junto dela
Nem ouso suspirar de acanhamento...
Se ela quisesse eu acabava a história
Como toda a Comédia - em casamento.

Ontem tinha chovido... que desgraça!
Eu ia a trote inglês ardendo em chama,
Mas lá vai senão quando uma carroça
Minhas roupas tafuis encheu de lama...

Eu não desanimei. Se Dom Quixote
No Rocinante erguendo a larga espada
Nunca voltou de medo, eu, mais valente,
Fui mesmo sujo ver a namorada...

Mas eis que no passar pelo sobrado
Onde habita nas lojas minha bela
Por ver-me tão lodoso ela irritada
Bateu-me sobre as ventas a janela...

O cavalo ignorante de namoros
Entre dentes tomou a bofetada,
Arrepia-se, pula, e dá-me um tombo
Com pernas para o ar, sobre a calçada...

Dei ao diabo os namoros. Escovado
Meu chapéu que sofrera no pagode
Dei de pernas corrido e cabisbaixo
E berrando de raiva como um bode.

Circunstância agravante. A calça inglesa
Rasgou-se no cair de meio a meio,
O sangue pelas ventas me corria
Em paga do amoroso devaneio!

O livro é dividido em três partes, cada uma delas provavelmente contendo poemas escritos em diferentes épocas pelo autor. A primeira parte do livro possivelmente contém os poemas que foram escritos quando o autor ainda era mais jovem, ainda pegando o jeito para a poesia. Digo isso porque essa parte é permeada por uma inocência evidente. Aqui, predominam os poemas que falam sobre o amor ideal, a mulher perfeita e alguns que remontam à infância do autor. Outra coisa que também reforça a suposição de que a primeira parte do livro contém poemas que o autor escreveu quando era mais novo é que por vezes alguns deles passam a impressão de serem imitações de outros autores. Preciso dizer, antes de tudo, que não estou falando de plágio. Não, Álvares de Azevedo não copiou o poema de ninguém. Contudo, pode-se perceber que ele tentava copiar o “estilo” de alguns autores, como Lord Byron.

Já a segunda e a terceira parte não deixaram de tratar sobre certos temas recorrentes, como o amor e a morte, mas dessa vez com um tom bem diferente da primeira parte do livro. O autor, à essa altura já mais experiente – tanto na vida quanto na técnica de sua poesia -, esbanjava ironia e pessimismo nas suas poesias.

Poderia ficar aqui falando sobre a obra por muito mais tempo, mas o texto já está ficando bem longo. Vou finalizar apenas dizendo que vale muito a pena você dar uma chance a essa leitura, pois você irá se surpreender. São poemas de muita qualidade e que, se você também conhecer um pouco do contexto em que foram escritos, será uma leitura muito rica e que irá contribuir demais para seu conhecimento acerca da literatura nacional. Até hoje o livro já foi republicado centenas de vezes por diferentes editoras, o que com certeza fará com que você consiga encontrá-lo com facilidade em qualquer livraria. Além disso, ele também já está em domínio público, então você conseguirá baixá-lo gratuitamente na internet. É isso, não tem desculpa para não ler a Lira dos Vinte Anos!